quinta-feira, 3 de abril de 2008

Caminhantes ou acomodados?


Tivemos há poucos dias a Páscoa, e é por isso normal que esta edição do essejota.net seja marcada por esta data. Talvez nem todos saibam porque a Páscoa é uma “festa móvel”, o porquê de nalguns anos ela acontecer logo no final de Março, e de noutros chegar a ser lá para a segunda metade de Abril. A sua marcação, recorde-se, está ligada ao ciclo das estações, pois cai sempre no primeiro Domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio da Primavera (21 de Março). “E que tem a Páscoa a ver com a lua?”, pode perguntar-se. É que a Páscoa, celebrada por Judeus e Cristãos (e fazendo parte também da história do Islão), recorda a fuga do povo israelita, escravo no Egipto, para a liberdade na terra de Canã (actual Palestina e Israel). Povo em fuga, caminhando sem parar, e por isso com a necessidade de ser iluminado não só de dia mas também de noite. Daí a ligação à lua cheia. A própria palavra “Páscoa” vem de pesah, que significa “passagem”, e recorda o momento da travessia do Mar Vermelho, que separa o Egipto da península do Sinai.


Ainda que a Páscoa continue a ser uma data importante no calendário anual, talvez este sentido original não esteja já tão presente. Mas é um sentido que continua profundamente actual: a Páscoa recorda a nossa condição humana de “peregrinos”, e no fundo questiona-nos sobre a forma como cada um de nós se coloca em relação à vida, se estamos “em caminho” ou se pelo contrario já “baixámos os braços”, “prisioneiros” das contrariedades e do cansaço. Foi o antigo Cardeal de Milão que há uns anos afirmou que, bem vistas as coisas, o mundo não se divide entre (auto-denominados) crentes e descrentes, mas sim entre “caminhantes”, pessoas insatisfeitas com o que já têm ou sabem, abertas à novidade e a questionar as suas certezas (ou seja, numa atitude de abertura à “profundidade espiritual”); e “acomodados”, aqueles que fecharam a porta à busca, à desacomodação permanente, à inquietação que leva ao desejo de mais. E um seu amigo também italiano, pensador agnóstico, acrescentava que nessa busca todos estamos unidos (mesmo se - crentes, agnósticos ou ateus - explicamos essa “profundidade” de forma diversa), na direcção de mais conhecimento, de mais sabedoria e de tornar o mundo um lugar melhor. Baixar os braços, concluía ele, era limitar a nossa própria humanidade.


Neste sentido, diria que o desafio da Páscoa dirige-se afinal à tentação sempre presente do imobilismo e do ficar à superfície das coisas. Numa existência cheia de stress, com tanto que fazer, acabamos muitas vezes por não ter tempo de parar e criar “espaços de estar”, e é relativamente fácil e comum que se passem meses sem que o tenhamos feito. Há quanto tempo não vamos a um espectáculo artístico ou a uma exposição de pintura? Há quanto não saímos de casa para ir assistir a uma conferência sobre um tema interessante, ou ficamos em casa a ler um bom romance ou um artigo jornalístico de fundo (em vez dos filmes ou do zapping habitual)? E este desafio surge em todas as áreas da nossa vida, no estudo e no trabalho, na fé e no olhar sobre o mundo à nossa volta. Recordo um colega com quem várias vezes fiz trabalhos de grupo, e que quando o trabalho apertava e os prazos finais se aproximavam, o encontrávamos a ler coisas que não tinham nada a ver. E defendia-se: “despertou-me curiosidade e não pude resistir” (a irritação não me passava completamente, mas não podia deixar de admirar esta sua característica!). Creio que a mudança desta Páscoa podia bem ser esta: crescer na capacidade de parar e de encontrar espaços para “alimentar a profundidade”; investir na curiosidade sobre temas da fé e da vida; e que seja cada vez menos a vida a passar por nós e a determinar o nosso quotidiano, e mais nós a marcar-lhe um rumo e a “agarrá-la” com ambas as mãos. Bom tempo de Páscoa para todos!


Filipe Martins